Prefeitura pisa no passado de Guarapuava ao mexer no Centro Histórico

Retirada de antigas pedras na calçada da Rua Visconde de Guarapuava, lateral da Catedral, é uma decisão equivocada

26/07/2016 20H20

As obras na rua lateral à Catedral, entorno que afeta um dos principais patrimônios históricos da cidade (Foto: Tonico de Oliveira)

A Prefeitura de Guarapuava adotou uma medida polêmica ao retirar os paralelepípedos da calçada da Rua Visconde de Guarapuava, numa das laterais da Catedral Nossa Senhora de Belém, que une dois pontos históricos da cidade: a Praça 9 de Dezembro, com a Catedral junto, até a Lagoa das Lágrimas.

O setor responsável da Prefeitura justifica a decisão alegando a necessidade de melhorar a mobilidade naquela região central, que, no entender dos planejadores da atual gestão municipal, fica comprometida com o atual formato das pedras.

Aquele é um dos trechos históricos ainda relativamente conservados do Patrimônio Cultural de Guarapuava, que remonta às primeiras intervenções urbanas da cidade com quase 200 anos de existência.

Há quem garanta que as pedras foram cortadas e colocadas pelos escravos.

O Conselho do Patrimônio Histórico e Cultural não foi consultado.

A rua e a calçada como eram antes da intervenção da atual gestão municipal; havia uma perfeita harmonia com a Catedral, compondo o entorno do Centro Histórico de Guarapuava

Cidades modernas e avançadas valorizaram o Patrimônio Histórico e Cultural

Não precisa muita análise para se concluir que as mudanças adotadas pela Prefeitura são um grande atentado contra a História de Guarapuava. Conflita com todas as tendências preservacionistas prevalecentes no Brasil e nas principais cidades do mundo.

Em Paris, por exemplo, muitas ruas com pavimento asfáltico voltaram ao seu formato original, com pedras irregulares e paralelepípedos, em respeito à história e também ao meio ambiente, pois facilitam o escoamento da água da chuva.

Para não ir muito longe, basta ver o Centro Histórico de Curitiba, o Largo da Ordem, que é um dos pontos mais preservados e visitados da Capital Paranaense. As gestões públicas municipais fizeram a cidade crescer no entorno do Largo da Ordem.

Guarapuava tem muito a perder com essa decisão equivocada da atual gestão municipal. Assim ocorreu no passado, quando o antigo prédio da Prefeitura Municipal foi vendido para o Bradesco em troca de uma dívida e transformado num estacionamento, na esquina da Rua XV de Novembro com a Vicente Machado.

Alguns cidadãos defendem a mudança realizada pela Prefeitura, em nome da "modernidade" e da "mobilidade". Civilizações avançadas descobriram, há tempos, que "modernidade" não é apagar os rastros do passado; é, precisamente, o contrário. Mais ainda, se for levado em conta que a rua e a calçada originais valorizam um dos principais cartões-postais da cidade, que é a Catedral Nossa Senhora de Belém.

Quanto à mobilidade, corre-se o risco de a atual gestão seguir a mesma linha "modernista" e retirar os paralelepípedos da rua,  para dar "mais vazão" ao tráfego. Haveria apenas o aumento da velocidade dos veículos, o que não justificaria um crime contra o patrimônio histórico de tamanha monta. Aqui se estabelece uma incoerência sem precedentes: as cidades que valorizam a "modernidade" estão reduzindo a velocidade dos carros, implantando medidas alternativas, premiando o cidadão com uma convivência mais saudável e harmônica.

Para melhorar a mobilidade na calçada, um recorte sobre o piso e a construção de um corredor com guias para cegos e cadeirantes já seriam o suficientes.

No Dia dos Avós, comemorado neste dia 26 de julho, a atual Gestão Municipal pisoteou sobre os ossos dos antepassados guarapuavanos. Quem não respeita o passado, jamais saberá respeitar o futuro.


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